
No Sítio Bela Vista, em Mombuca/SP, a família Beltrame representa a continuidade de um legado familiar.
A propriedade, adquirida em 1940 por José Beltrame Sobrinho, atravessou décadas de mudanças na produção agrícola e permanece como símbolo de uma história construída por diferentes gerações.
Hoje, José Alceu Beltrame e sua filha, Silvia Beltrame, compartilham a responsabilidade de administrar a propriedade e preparar o futuro da família no campo.
José Alceu nasceu e foi criado no Sítio Bela Vista.
Filho caçula de oito irmãos, cresceu em uma época em que o trabalho agrícola dependia principalmente da força humana e da tração animal.
Antes da chegada dos tratores e das tecnologias que hoje fazem parte da rotina rural, o cultivo exigia muito esforço e a participação de toda a família.
Quando seu pai adquiriu a propriedade, a produção incluía culturas como milho e feijão, além de vassoura.
Com o passar dos anos, a cana-de-açúcar também passou a fazer parte da atividade, e o trabalho no campo se tornou parte inseparável da vida familiar.
“Aos 10 anos eu ia na escola e voltava para o campo, não tinha tempo para brincadeira. Nós colhíamos cana, era tudo familiar, manejo, plantio, colheita, adubação”, relembrou José Alceu.
A rotina era intensa. Sem herbicidas, o controle das plantas invasoras “era feito manualmente, com o facão”, como ele disse.
O plantio, o manejo e a colheita exigiam dedicação diária, e cada integrante da família tinha sua participação nas atividades da propriedade.
Ao recordar esse período, José Alceu destaca a dimensão das transformações vividas pela agricultura.
A mecanização e a chegada de novas tecnologias modificaram a maneira de produzir, ampliaram as possibilidades de trabalho e trouxeram mais eficiência para o campo.
Depois de décadas dedicadas à propriedade, José Alceu vê na participação da filha Silvia uma oportunidade de manter viva a história iniciada por seu pai.
Das duas filhas, uma mora em Porto Alegre/RS, enquanto Silvia permanece ao seu lado na administração da propriedade.
O envolvimento dela com o campo começou ainda na infância, quando acompanhava a rotina do sítio e observava de perto o trabalho realizado pela família.
“Estou feliz que tenho alguém para dar continuidade. Desde criança ela teve iniciativa nessa área”, afirmou José Alceu.
Para ele, a sucessão representa a possibilidade de transmitir às próximas gerações os conhecimentos, os valores e a dedicação que sustentaram a propriedade ao longo de décadas.
O produtor também reconhece que o trabalho rural se tornou cada vez mais complexo e que a união entre pessoas e instituições é fundamental para enfrentar os desafios do setor.
“Hoje, não se trabalha só. Precisamos de comunidade, por isso veio a COPLACANA e toda sua expansão ao longo dos anos”, destaca.
Para Silvia Beltrame, a relação com o campo começou muito antes de assumir responsabilidades na administração da propriedade.
A infância foi marcada pelas brincadeiras no sítio, pelos passeios de bicicleta e pelo contato com a rotina agrícola.
Ao longo dos anos, ela acompanhou mudanças importantes na produção, como a transição da cana queimada para novos sistemas de manejo e a chegada de máquinas e equipamentos que transformaram o trabalho rural.
Cada avanço representou uma oportunidade de melhorar a atividade e preparar a propriedade para novas demandas. Silvia também buscou formação para aprimorar a gestão e incorporar ferramentas capazes de apoiar as decisões do negócio.
“Fiz formações para administrar melhor a propriedade, implementamos IA para facilidade e visibilidade de dados. Transformamos o que temos no campo em números”, explicou.
A utilização da inteligência artificial e de recursos de análise de dados demonstra como a tradição familiar pode caminhar junto com a inovação.
O conhecimento acumulado ao longo das gerações continua sendo essencial, mas passa a contar também com ferramentas que ajudam a organizar informações, acompanhar resultados e identificar oportunidades de melhoria.
A relação da família Beltrame com a COPLACANA também faz parte dessa história.
Silvia recorda que acompanhava o pai nas idas à cooperativa para a compra de insumos, criando desde cedo uma ligação com a cooperativa.
Atualmente, é coordenadora do Núcleo Jovem.
“Ele me levava na COPLACANA para fazer a compra de insumos, conheço a cooperativa desde muitos anos atrás”, contou.
Essa convivência atravessou diferentes fases da agricultura e acompanhou a evolução das necessidades dos produtores.
Se antes o desafio estava em realizar as atividades com poucos recursos e muito trabalho manual, hoje também envolve gestão, tecnologia, produtividade e planejamento de longo prazo.
Nesse cenário, o cooperativismo contribui para aproximar produtores, oferecer suporte e facilitar o acesso a soluções importantes para a atividade rural.
A experiência da família Beltrame mostra como essa parceria pode acompanhar diferentes gerações, respeitando a história de cada propriedade e ajudando a preparar seus próximos passos.
Silvia tem um filho, Thomas, e procura transmitir a ele o mesmo vínculo com o campo que recebeu de seu pai.
Para ela, a sucessão familiar não acontece apenas pela transferência de responsabilidades: é preciso que as novas gerações compreendam o significado daquele trabalho e desenvolvam sua própria relação com a atividade rural.
A experiência de acompanhar José Alceu durante tantos anos ensinou que a produção agrícola exige muito mais do que conhecimento técnico.
São necessárias dedicação, resiliência e disposição para enfrentar as dificuldades que fazem parte da rotina de quem vive da terra.
“É muito amor e dedicação, afinal não é fácil. É isso que queremos para o sucessor, que ele tenha a mesma paixão para que ele não desista diante de alguma dificuldade. Afinal, há um legado muito maior a ser continuado”, afirmou.
Silvia também guarda na memória os dias em que via o pai chegar em casa depois de longas jornadas de trabalho, muitas vezes com mais de 12 horas dedicadas à propriedade.
São lembranças que reforçam a dimensão do esforço necessário para construir e manter uma história no campo.
A história da família Beltrame traduz o significado de construir o futuro sem perder as próprias raízes. “Quero isso para meu filho e meu sobrinho.
Aqui há muito amor, muito suor. Então que eles sejam fortes o suficiente para continuar isso”, completou.









